Por William Silva
Domingo no supermercado, um ritual de milhões de pessoas. E como de costume, Elisa e Sales foram fazer compras para se manterem durante a semana. Lado a lado, empurrando o carrinho como quem empurra a vida a dois há vinte e cinco anos. Vinte e cinco anos... Um quarto de século que esgarçou as bordas do amor, substituindo o brilho nos olhos pelo reflexo opaco da rotina. O romantismo, outrora farol, agora era apenas uma vaga lembrança em meio à poeira da impaciência, das frustrações silenciadas e dos pequenos desentendimentos diários, ácidos como fel, corroendo a cumplicidade.
Caminhavam em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos, quando o supermercado mergulhou na escuridão. Um breve instante de breu, e então as luzes voltaram, piscando antes de se firmarem. Seguiram adiante, quase sem dar muita importância à interrupção, até que seus olhares se cruzaram. O susto foi um trovão silencioso. As rugas eram mais profundas, os cabelos mais ralos, a expressão cansada, carregada de um peso que ia além dos vinte e cinco anos vividos juntos. Quase não se reconheceram. Era como se o tempo, naquele breve apagão, tivesse decidido cobrar a fatura de todas as noites maldormidas, de todas as palavras não ditas, de todos os sonhos engavetados.
Como explicar aquela metamorfose súbita e cruel? A ciência não tinha respostas, a lógica se rendia ao inexplicável. Mas ali estavam eles, envelhecidos em um piscar de olhos, a incredulidade estampada em cada linha de suas novas faces. O choque inicial paralisou qualquer reação. O que fazer? Para onde ir? Sentaram-se na lanchonete do supermercado, em meio ao burburinho de outros casais e famílias, mas se sentindo como estranhos em seu próprio tempo.
Entre um café amargo e um pão de queijo esquecido, as palavras começaram a fluir, hesitantes a princípio, depois ganhando força na busca por uma explicação. Então vieram lembranças de filmes de ficção científica, leituras sobre física quântica e teorias sobre portais dimensionais. Em meio ao caos de suas mentes, a hipótese de terem atravessado algum tipo de fenda temporal começou a ganhar corpo. E se a solução fosse refazer o caminho, retornar ao ponto exato do apagão?
Levantaram-se, hesitantes, e percorreram os corredores novamente, agora com um novo olhar. E foi então que perceberam que a mudança não era apenas física. As farpas verbais que costumavam trocar a cada esquina do supermercado não vieram. A irritação matinal que azedava seus humores parecia ter evaporado. No lugar da disputa mesquinha por qual marca de cerveja levar, havia um silêncio ponderado, um olhar de compreensão quando um deles hesitava diante de um produto.
Uma paz insólita, um sentimento de aceitação mútua floresciam naquele cenário improvável. Era como se o peso dos anos lhes tivesse ensinado, à força, a relativizar as pequenas coisas, a valorizar a presença um do outro, mesmo que marcada pelo tempo. Uma sabedoria espiritual inesperada brotava da experiência surreal, pavimentando uma nova forma de caminhar juntos, guiada pela fraternidade, pela paciência, por um amor mais maduro e menos egoísta.
Chegaram ao ponto onde as luzes haviam se apagado, um corredor banal entre a seção de frutas e a de laticínios. Ali, naquele ponto insignificante, supostamente residia a chave para desfazer o inexplicável, para reaver os 25 anos “perdidos”. Pararam. Olharam um para o outro, as novas rugas contando histórias silenciosas. Será que era isso mesmo que queriam? Voltar àquela dinâmica desgastante, àquele ciclo vicioso de cobranças e frustrações? Trocar a recém-descoberta paz interior pela velha guerra fria doméstica?
Hesitaram. O tempo pareceu se esticar novamente, não em anos, mas em uma eternidade de reflexão. A resposta veio no suave apertar de mãos, no olhar cúmplice que dispensava palavras. Não. Não valia a pena. Que ficassem os 25 anos a menos, marcados na pele e na alma. Aquela nova perspectiva, aquela inesperada serenidade, era um presente valioso demais para ser trocado pela ilusão de uma juventude eterna, mas infeliz.
A vida, sabiam agora com uma clareza dolorosa, era finita. E preferiam vivê-la, mesmo com as marcas do tempo, em paz, em compreensão, em um amor que havia se reinventado na escuridão de um apagão de domingo no supermercado. Deixaram para trás o portal invisível, certos de que a verdadeira jornada era aquela que se abria diante deles, mais curta talvez, mas infinitamente mais rica em significado.




